top of page

Brasil matou ao menos 50 pessoas LGBTI+ em três meses: documenta relatório sobre LGBTfobia em 2026

  • há 4 horas
  • 4 min de leitura

Observatório Brasileiro LGBTI+ Janaína Dutra divulga dados sobre primeiro trimestre de 2026 e aponta negligência estatal na segurança pública


No primeiro trimestre de 2026, ao menos 50 vidas foram ceifadas no Brasil em contextos de LGBTIfobia, segundo levantamento do Observatório Brasileiro LGBTI+ Janaína Dutra, divulgado no Dia Internacional Contra a LGBTIfobia, 17 de maio. De acordo com dados da pesquisa, 60% desses casos (30 mortes) foram precisamente motivados por LGBTIfobia, enquanto outros 40% (20 casos) apresentam indícios de contexto LGBTIfóbico.


Os números indicam: travestis e mulheres trans são as principais vítimas, representando 52% dos casos (26 mortes), seguidas por gays com 30% (15 mortes), lésbicas com 8% (4), homens trans com 4% (2), bissexuais com 2% (1) e outros segmentos com 4% (2).



Visualização de dados quanto ao Número de mortes de LGBTI+ por segmento em 2026
Número de mortes de LGBTI+ por segmento em 2026



DADOS PRINCIPAIS DO RELATÓRIO SOBRE LGBTFOBIA NO BRASIL EM 2026

50 pessoas LGBTI+ mortas entre janeiro e março de 2026

30 mortes (60%) confirmadamente motivadas por LGBTIfobia

Travestis e mulheres trans: 52% das vítimas

Ausência de participação LGBTI+ nos espaços de decisão da segurança pública


Subnotificação dos Casos

O Observatório destaca que esses números, ainda que alarmantes, provavelmente são inferiores à realidade.


Nem toda morte motivada por LGBTIfobia torna-se conteúdo jornalístico ou chega ao conhecimento por meio da metodologia de levantamento de casos.


Apesar da subnotificação, o rigor metodológico do Observatório mostra-se muito relevante: em comparação com dados da Polícia Civil e Secretarias de Segurança Pública, a sistematização do Observatório frequentemente contém mais detalhes sobre vítimas e circunstâncias dos crimes do que o

poder público brasileiro.


Por trás dos números há pessoas reais

Cada número nesse relatório é uma vida que o Brasil não soube proteger.


Cada uma delas foi uma abrupta perda para famílias, amigos, maridos/esposas, colegas de trabalho e tantas outras relações que temos em rede.


O Observatório documenta não apenas dados estatísticos, mas histórias reais que expõem o lado humano obscuro de uma sociedade que ainda tolera a desumanização de corpos dissidentes.


Em Remanso (BA), no início de 2026, um casal de mulheres celebrou publicamente a chegada do novo ano. Horas depois, de volta ao quarto onde estavam hospedadas, foram surpreendidas. Um ex-companheiro invadiu o local e ateou fogo. Populares ainda tentaram conter as chamas e entraram no imóvel, mas chegaram tarde.


Bifobia, lesbofobia e misoginia operaram de forma articulada — como se a existência de um relacionamento entre mulheres representasse uma "ruptura" intolerável nas estruturas de controle patriarcal.



Mikaela e Kacymyra no Reveillon um dia antes de serem mortas
Mikaela e Kacymyra no Reveillon


Em Ponta Porã (MS), em março de 2026, uma mulher trans de 29 anos foi enganada por uma emboscada. Seu namorado e patrões a cercaram. Enquanto riam, a golpeavam com tacos de sinuca e cabos de vassoura.

Mas a crueldade chegou ao extremo: gravaram uma suástica nazista em seu braço com uma faca quente — um símbolo de extermínio que carrega séculos de ódio.

Ela descreveu a experiência como um "encontro com a morte". Hoje enfrenta trauma, pesadelos e precisa de três cirurgias reconstrutivas, incluindo enxertos de pele. Sua frase ecoará para além deste relatório:


"Vou ter que fazer duas cirurgias na minha cabeça e trocar a minha pele, arrancar essa e colocar outra."

Estes não são casos isolados. São um sintoma contundente de uma estrutura de ódio que afeta cotidianamente cidadãos LGBTI+ no Brasil.



Mulher trans marcada com suástica ao ser torturada
Mulher trans marcada com suástica


Estado negligencia a presença de pessoas LGBTI+ nas decisões

O relatório aponta que a segurança pública no Brasil não foi pensada para proteger a população LGBTI+.


A ausência de formação adequada de agentes de segurança, falta de protocolos específicos, subnotificação de crimes e revitimização institucional compõem um cenário de abandono.


Preocupante é também a redução de 87,5% na representação de sociedade civil no Conselho Nacional de Segurança Pública (CONASP), comparado ao período anterior ao governo Bolsonaro. Atualmente, apenas duas cadeiras de 40 são destinadas à sociedade civil — e nenhuma é ocupada por organizações LGBTI+ ou de direitos humanos.


Orçamento desproporcionalmente voltado para repressão

A estrutura estatal permanece fundamentalmente punitiva, como revela a Lei Orçamentária Anual de 2026 ao indicar que o Ministério da Justiça e Segurança Pública terá orçamento aproximadamente 46 vezes maior que o Ministério dos Direitos Humanos. A disparidade orçamentária não é apenas uma questão técnica, mas também política, ao revelar prioridades e escolhas que impactam diretamente a vida e a morte de pessoas e quem o Estado decide proteger ou não.


Não há investimentos específicos em políticas de prevenção, proteção e promoção de direitos para pessoas LGBTI+, reforçando a lógica de negligência estatal. Mais do que isso, evidencia que a segurança pública, tal como estruturada, não tem sido pensada para garantir a proteção dessa população.


Ao contrário, muitas vezes atua como mecanismo de exclusão e violência. Isso exige não apenas reformas pontuais, mas uma reconfiguração profunda do paradigma de segurança pública no Brasil.


Sobre o Observatório Brasileiro LGBTI+ Janaína Dutra

O Observatório é um instrumento político que opera desde 2020 a partir de um ciclo contínuo de monitoramento de violências, incidência política e transformação socioinstitucional.

Desenvolvido pela cooperação de organizações da sociedade civil — Acontece Arte e Política LGBTI+, ANTRA e ABGLT — o Observatório sistematiza casos de violência contra pessoas LGBTI+ com rigor metodológico, preservando a memória histórica e coletiva das vítimas, orientando a construção do Dossiê de Mortes e Violências contra LGBTI+.


"Ser LGBTI+ é enfrentar uma estrutura que não foi pensada para a existência desta população. Continuaremos a contar — cada história, cada nome e cada violação — até que o Brasil deixe de ser o país que marca a pele de suas cidadãs com o ódio e passe a ser o país que as protege com o direito."

— Observatório Brasileiro LGBTI+ Janaína Dutra


Leia na Íntegra o Relatório sobre LGBTfobia Letal no brasil 2026:


Capa do Relatório Parcial sobre lgbtfobia letal no Brasil


 
 

REDES SOCIAIS

  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • Twitter - Círculo Branco

SEDE ADMINISTRATIVA

Rua Araújo, 124, Sala 05, 3º andar

República, São Paulo-SP

CEP 01220-020

FUNCIONAMENTO

Segunda a Sexta-feira

10h00 - 17h00

ABGLT • Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos

© Todos os Direitos Reservados • 2022

FALE COM A GENTE

Agradecemos a sua mensagem. Responderemos em breve.

E-MAIL

bottom of page